Três modos de estudar os seis exercícios: um quiz de cinco rodadas, uma pilha de cartões para revisão rápida e a teoria escrita. Modelo OSI, montagem da LAN com Wi-Fi, ligação entre duas redes, tabelas MAC e ARP e a topologia completa.
Índice
- Modelo OSI: as sete camadas
- Configuração física da rede local
- Configuração lógica da rede local
- Endereçamento IP: rede, broadcast e hosts válidos
- Gateway
- ARP: por que ele é necessário
- DHCP: como funciona
- Tabela MAC e tabela ARP lado a lado
- Duas redes locais ligadas por um roteador
- A topologia montada
- Comandos de diagnóstico
- Erros que mais derrubam uma rede
1. Modelo OSI: as sete camadas
O modelo OSI é um modelo de referência. Ele divide a comunicação em rede em sete camadas, cada uma com uma responsabilidade própria. A camada de cima usa os serviços da camada de baixo e não precisa saber como ela faz o trabalho. Essa separação é o que permite trocar o cabo por Wi-Fi sem reescrever o navegador, ou trocar o navegador sem mexer no cabo.
Na origem, os dados descem da camada 7 até a camada 1. Cada camada acrescenta o seu próprio cabeçalho, o que se chama encapsulamento. No destino o caminho é inverso: cada camada retira o seu cabeçalho e entrega o conteúdo para a camada de cima. Por isso o nome de cada unidade muda conforme a camada.
Camada 7 — Aplicação
É a camada do protocolo que o programa usa para conversar. Não é o programa em si: o navegador é um programa, o HTTP é o protocolo da camada 7. Exemplos: HTTP e HTTPS para páginas, DNS para resolver nomes, SMTP e IMAP para e-mail, FTP e SSH para arquivos e acesso remoto.
Camada 6 — Apresentação
Cuida de como os dados estão representados: codificação de caracteres como UTF-8, formatos como JSON e JPEG, compressão e criptografia. O TLS, que transforma HTTP em HTTPS, atua aqui. É a camada que garante que o que uma ponta escreveu a outra consegue interpretar.
Camada 5 — Sessão
Estabelece, mantém, sincroniza e encerra o diálogo entre as duas pontas. É quem sabe que aquelas várias trocas de mensagens pertencem à mesma conversa, e quem retoma de onde parou quando uma transferência longa é interrompida.
Camada 4 — Transporte
Faz a entrega fim a fim entre processos, não entre máquinas. Quem identifica o processo é o número de porta: 80 para HTTP, 443 para HTTPS, 53 para DNS. A camada 4 também quebra os dados em segmentos, controla o fluxo e, no caso do TCP, garante que tudo chegou e na ordem certa. O UDP não garante nada, e por isso é mais rápido e serve para voz, vídeo e jogos.
Diferença que costuma cair: o IP, da camada 3, leva o pacote até a máquina certa. A porta, da camada 4, leva até o programa certo dentro daquela máquina.
Camada 3 — Rede
Faz o endereçamento lógico, com endereço IP, e o roteamento entre redes diferentes. É a camada onde o roteador trabalha. Também é aqui que vive o ICMP, o protocolo usado pelo ping e pelo tracert, e o campo TTL, que impede um pacote de circular para sempre.
Camada 2 — Enlace
Entrega o quadro dentro do mesmo segmento local, usando endereço físico, o MAC. É a camada do switch, do Ethernet e do Wi-Fi. Também faz detecção de erro no quadro. O ARP fica na fronteira entre a camada 3 e a camada 2, porque é ele que traduz IP em MAC.
Camada 1 — Física
Transmite os bits como sinal: elétrico no cabo de par trançado, óptico na fibra, ou de rádio no Wi-Fi. Define conectores, pinagem, tensão e taxa de transmissão. Cabo partido, conector mal crimpado e porta queimada são problemas de camada 1.
Resumo das sete camadas
OSI e TCP/IP
O OSI é um modelo de estudo. O que roda de fato nas redes é a pilha TCP/IP, que agrupa as camadas 5, 6 e 7 em uma única camada de aplicação, e as camadas 1 e 2 em uma camada de acesso à rede. O OSI continua sendo útil como linguagem comum: dizer que um problema é de camada 3 significa falta de rota ou IP errado, enquanto camada 7 significa que a rede entregou e quem falhou foi a aplicação.
2. Configuração física da rede local
Montar uma rede local tem duas metades. A física trata dos equipamentos e dos cabos: o que se compra e onde se liga. A lógica trata dos endereços e dos serviços: o que se configura em cada máquina. As duas precisam estar certas. Uma rede fisicamente perfeita com IP errado não funciona, e o contrário também vale.
Placa de rede e endereço MAC
A placa de rede, ou NIC, é a interface que liga o computador ao meio. Pode ser Ethernet, com conector RJ-45, ou Wi-Fi. Um notebook normalmente tem as duas, e nesse caso ele tem dois endereços MAC, um por interface.
O endereço MAC é o identificador físico da placa. Tem 48 bits, escritos como seis pares hexadecimais separados por dois-pontos ou hífen. Ele vem gravado de fábrica e não é configurado pelo usuário.
00:1A:2B:00:00:11
|________| |______|
OUI serial
OUI = 3 primeiros bytes, identificam o fabricante
serial = 3 últimos bytes, identificam a placa
Existe um MAC especial: FF:FF:FF:FF:FF:FF é o endereço de broadcast da camada 2. Um quadro enviado para ele é entregue a todos os dispositivos do segmento local. O ARP usa esse endereço para perguntar quem tem um determinado IP.
Switch e tabela MAC
O switch interliga os dispositivos da mesma rede. Ele trabalha na camada 2: recebe um quadro, lê o endereço MAC de destino e encaminha apenas pela porta onde aquele MAC está. Para saber qual porta é qual, ele mantém a tabela MAC, também chamada tabela CAM.
A tabela não é configurada: o switch aprende sozinho. Sempre que um quadro chega, ele lê o MAC de origem e anota que aquele endereço está naquela porta. Veja o aprendizado acontecendo:
- A tabela começa vazia. O PC1, na porta Fa0/1, envia um quadro para o PC2.
- O switch lê o MAC de origem e grava: Fa0/1 pertence ao MAC do PC1.
- Como ainda não conhece o MAC de destino, o switch envia o quadro por todas as portas, menos a de entrada. Isso se chama inundação, ou flooding.
- O PC2 responde. O switch lê o MAC de origem da resposta e grava: Fa0/3 pertence ao MAC do PC2.
- A partir daqui, a conversa entre PC1 e PC2 sai apenas pelas portas corretas. O restante da rede não vê mais esse tráfego.
As entradas expiram por inatividade, tipicamente em torno de cinco minutos, para que a tabela acompanhe mudanças de lugar dos equipamentos. Em switches gerenciáveis a tabela é consultada com show mac address-table.
Sem tabela MAC o switch se comportaria como um hub, repetindo tudo por todas as portas. Isso desperdiça banda e deixa o tráfego visível para todo mundo. A tabela MAC é o que diferencia um switch de um hub.
Access point
O access point cria a rede sem fio. Ele é uma ponte de camada 2: pega o quadro que chegou pelo rádio e o coloca na rede cabeada, e vice-versa. Não roteia, não cria uma rede nova e não precisa de um IP para funcionar como ponte. Um IP de gerência pode existir, mas serve só para administrar o próprio equipamento.
A consequência prática é importante: quem entra pelo Wi-Fi fica na mesma rede lógica de quem está no cabo. Mesma faixa de IP, mesma máscara, mesmo gateway, mesmo domínio de broadcast.
Roteador
O roteador liga redes diferentes. Ele trabalha na camada 3: olha o endereço IP de destino, consulta a tabela de rotas e decide por qual interface o pacote sai. Cada interface dele tem um IP dentro da rede a que está conectada, e esse IP é o gateway daquela rede.
Um roteador doméstico junta várias funções em uma caixa só: roteador, switch de poucas portas, access point, servidor DHCP e NAT. Em prova, vale separar os papéis.
Hub, switch e roteador
Como conectar cinco PCs com acesso sem fio
Cenário do exercício: cinco computadores por cabo e também acesso Wi-Fi para notebooks e celulares. O hardware necessário é este:
- Modem ou ONT, que termina o link da operadora. Só é necessário se houver internet.
- Roteador, que separa a LAN da internet e faz gateway, DHCP e NAT.
- Switch, para ligar os cinco PCs. Cinco máquinas mais o uplink exigem seis portas, então um switch de oito portas resolve com folga.
- Access point, para o Wi-Fi. Pode ser o rádio embutido no roteador.
- Placa de rede em cada PC.
- Cabos de par trançado Cat5e ou Cat6 com conectores RJ-45.
A ligação segue esta ordem:
- O cabo da operadora entra no modem ou ONT.
- O modem liga na porta WAN do roteador. É a única porta que recebe a internet.
- Uma porta LAN do roteador liga em uma porta do switch. É um cabo só, chamado uplink.
- Cada um dos cinco PCs liga em uma porta do switch.
- O access point liga em outra porta do switch, nunca na porta WAN.
- Notebooks e celulares se conectam ao SSID do access point.
3. Configuração lógica da rede local
Com os cabos no lugar, a rede ainda não funciona. Falta dar a cada máquina a informação de onde ela está e por onde sai. São estes os elementos.
Endereço IP
Identifica o host na camada 3. Dentro de uma mesma rede ele precisa ser único: dois hosts com o mesmo IP causam conflito e os dois ficam instáveis. O IP pode ser fixo, digitado à mão, ou dinâmico, entregue pelo DHCP.
Máscara de sub-rede
A máscara divide o endereço em duas partes: qual pedaço identifica a rede e qual identifica o host. É ela que responde à pergunta mais importante que o computador faz antes de enviar qualquer coisa: o destino está na minha rede, ou preciso mandar para o roteador? O capítulo 4 mostra essa conta em detalhe.
Gateway padrão
É o IP do roteador dentro da rede local. Todo pacote destinado a um endereço que não pertence à rede local é entregue a ele. Sem gateway configurado, o host consegue falar com os vizinhos e mais nada, nem internet nem outra rede interna.
Servidor DNS
Traduz nome em endereço IP. Sem DNS a rede continua funcionando por IP, mas nada resolve por nome. É um sintoma clássico: o ping para 8.8.8.8 responde e o ping para um site falha. Isso aponta DNS, não conectividade.
DHCP
Distribui automaticamente IP, máscara, gateway e DNS. Evita erro de digitação e IP repetido. O capítulo 7 detalha o funcionamento.
SSID e segurança sem fio
O SSID é o nome da rede sem fio. A segurança, WPA2 ou WPA3, autentica quem entra e cifra o tráfego de rádio. Rede aberta significa que qualquer pessoa no alcance entra e enxerga o tráfego.
NAT
Traduz os endereços privados da rede local para o endereço público na saída para a internet. É o que permite dezenas de máquinas usarem um único IP público. O NAT serve para a saída externa, e não deve ser usado entre duas redes internas que precisam se enxergar.
Exemplo completo de configuração
4. Endereçamento IP: rede, broadcast e hosts válidos
Um endereço IPv4 tem 32 bits, escritos como quatro números de 0 a 255 separados por ponto. Cada número ocupa 8 bits e se chama octeto. O endereço sozinho não diz nada: é a máscara que define onde termina a parte de rede e onde começa a parte de host.
Máscara e prefixo
A máscara também tem 32 bits. Os bits 1, sempre à esquerda e sem buracos, marcam a parte de rede. Os bits 0, à direita, marcam a parte de host. O prefixo, escrito com barra, é apenas a quantidade de bits 1.
/24 = 255.255.255.0 = 11111111.11111111.11111111.00000000
/25 = 255.255.255.128 = 11111111.11111111.11111111.10000000
/26 = 255.255.255.192 = 11111111.11111111.11111111.11000000
/27 = 255.255.255.224 = 11111111.11111111.11111111.11100000
/28 = 255.255.255.240 = 11111111.11111111.11111111.11110000
As três contas
Dado um IP e uma máscara, três valores interessam. O método é sempre o mesmo.
- Endereço de rede: faz-se o E lógico, ou AND, entre o IP e a máscara, bit a bit. Na prática, zera-se toda a parte de host. Esse endereço identifica a rede e não pode ser dado a nenhum host.
- Endereço de broadcast: é o último endereço da faixa. Ligam-se todos os bits da parte de host em 1. Também não pode ser dado a nenhum host.
- Hosts válidos: é tudo que está entre os dois. A quantidade é 2 elevado a h, menos 2, onde h é o número de bits de host. Os dois que saem da conta são exatamente o endereço de rede e o de broadcast.
Exemplo 1: 192.168.1.10 com máscara /24
Com /24, os 24 primeiros bits são rede e os 8 últimos são host. Como o corte cai exatamente no fim de um octeto, a conta é direta: o último octeto inteiro é a parte de host.
IP 192.168.1 . 10
Máscara 255.255.255 . 0
Rede 192.168.1.0 (último octeto zerado)
Broadcast 192.168.1.255 (último octeto no máximo)
Hosts 192.168.1.1 até 192.168.1.254
Quantidade 2^8 - 2 = 254
Exemplo 2: 192.168.1.200 com máscara /26
Aqui o corte cai no meio do último octeto. Com /26 sobram 6 bits de host, e o bloco tem 2 elevado a 6, ou seja, 64 endereços. As redes /26 começam de 64 em 64: 0, 64, 128 e 192.
Tamanho do bloco 256 - 192 = 64
Blocos possíveis .0 .64 .128 .192
O host .200 cai no bloco que começa em .192
Rede 192.168.1.192
Broadcast 192.168.1.255 (192 + 64 - 1)
Hosts 192.168.1.193 até 192.168.1.254
Quantidade 2^6 - 2 = 62
Atalho útil: subtraia o último octeto da máscara de 256 e você obtém o tamanho do bloco. Para /26, 256 menos 192 dá 64. Depois é só achar em qual múltiplo desse número o host cai.
Exemplo 3: 10.0.5.130 com máscara /25
Com /25 sobram 7 bits de host, e o bloco tem 128 endereços. As redes /25 começam em 0 e em 128.
Tamanho do bloco 256 - 128 = 128
Blocos possíveis .0 .128
O host .130 cai no bloco que começa em .128
Rede 10.0.5.128
Broadcast 10.0.5.255
Hosts 10.0.5.129 até 10.0.5.254
Quantidade 2^7 - 2 = 126
Exemplo 4: 172.16.20.77 com máscara /20
Quando o prefixo é menor que 24, o corte acontece no terceiro octeto. Com /20, os 4 primeiros bits do terceiro octeto são rede, e os outros 4, mais o quarto octeto inteiro, são host.
Máscara /20 255.255.240.0
Tamanho do bloco 256 - 240 = 16 (no TERCEIRO octeto)
Blocos possíveis .0 .16 .32 .48 ...
O terceiro octeto vale 20, que cai no bloco que começa em 16
Rede 172.16.16.0
Broadcast 172.16.31.255 (16 + 16 - 1 = 31 no terceiro octeto)
Hosts 172.16.16.1 até 172.16.31.254
Quantidade 2^12 - 2 = 4094
Tabela de consulta rápida
Faixas privadas e endereços especiais
10.0.0.0/8, de 10.0.0.0 a 10.255.255.255. Faixa privada grande, comum em empresas.
172.16.0.0/12, de 172.16.0.0 a 172.31.255.255. Faixa privada média.
192.168.0.0/16, de 192.168.0.0 a 192.168.255.255. Faixa privada típica de casa e escritório.
127.0.0.1, o loopback. É a própria máquina, não passa pela rede.
169.254.x.x, o APIPA. Se aparecer, o host não recebeu resposta do DHCP e se atribuiu um endereço sozinho. É um sintoma, não uma configuração.
5. Gateway
Gateway é a porta de saída da rede. Na prática, é o endereço IP de uma interface do roteador dentro daquela rede local. Quando o host precisa falar com alguém que não está na sua rede, ele entrega o pacote ao gateway, e o roteador continua o trabalho dali para a frente.
Como o host decide usar o gateway
Antes de enviar qualquer pacote, o host faz uma comparação. Ele aplica a própria máscara ao endereço de destino e compara o resultado com a própria rede.
Host 192.168.1.10 / 255.255.255.0 rede 192.168.1.0
Destino 192.168.1.50 AND máscara = 192.168.1.0 igual -> entrega direta
Destino 192.168.2.10 AND máscara = 192.168.2.0 diferente -> manda ao gateway
Na entrega direta o host resolve o MAC do próprio destino por ARP e envia o quadro pelo switch. Na entrega indireta ele resolve o MAC do gateway e envia o quadro para o roteador, mantendo o IP do destino final dentro do pacote.
A rota padrão
Na tabela de rotas do host, o gateway aparece como rota padrão, escrita como 0.0.0.0/0. Ela significa qualquer destino que não casou com nenhuma rota mais específica. É sempre a última opção consultada, porque o roteamento escolhe sempre a rota de prefixo mais longo.
Vários gateways na mesma rede
Uma rede pode ter mais de um roteador. Três situações aparecem com frequência:
- Saídas diferentes para destinos diferentes: um roteador leva à internet e outro leva a uma filial. O host mantém o gateway padrão apontando para a internet e recebe uma rota estática dizendo que a rede da filial vai pelo outro roteador.
- Redundância: dois roteadores compartilham um mesmo IP virtual de gateway usando protocolos como VRRP ou HSRP. Os hosts conhecem apenas esse IP virtual; se o roteador ativo cair, o outro assume sem que ninguém precise ser reconfigurado.
- Dois gateways padrão no mesmo host: é a configuração que dá problema. O sistema escolhe pela métrica da interface, e o comportamento fica imprevisível, com tráfego saindo pelo caminho errado ou intermitência. Evite: use um gateway padrão e rotas estáticas para o resto.
Regra que resolve a maioria dos exercícios: o gateway precisa estar dentro da mesma sub-rede do host. Um host 192.168.1.10/24 não pode ter gateway 192.168.2.1, porque ele não consegue nem resolver o MAC desse endereço.
6. ARP: por que ele é necessário
Existem dois endereços em jogo o tempo todo. O endereço IP, da camada 3, é lógico, configurado, e identifica o host na rede. O endereço MAC, da camada 2, é físico, de fábrica, e identifica a placa dentro do segmento local.
A aplicação trabalha com IP: o navegador quer falar com 192.168.1.50. Mas quem entrega de fato é a camada 2, e o quadro Ethernet exige um endereço MAC de destino para ser montado. Falta alguém que ligue uma coisa na outra. Esse alguém é o ARP, o Address Resolution Protocol.
Como funciona
- O host quer enviar algo para 192.168.1.50 e consulta a própria tabela ARP.
- Se encontra o par, monta o quadro e envia. Fim.
- Se não encontra, envia um ARP Request em broadcast, para
FF:FF:FF:FF:FF:FF, perguntando quem tem o endereço 192.168.1.50.
- Todos os dispositivos do segmento recebem a pergunta, mas só o dono daquele IP responde.
- A resposta, o ARP Reply, vem em unicast e traz o MAC.
- O par IP e MAC entra na tabela ARP e passa a valer por alguns minutos.
O detalhe que mais cai em prova
Quando o destino está em outra rede, o host não faz ARP do IP remoto. O ARP usa broadcast, e broadcast não atravessa roteador. O que o host faz é resolver o MAC do gateway.
PC1 (192.168.1.10, em R1) quer falar com PC2 (192.168.2.10, em R2)
Camada 3 origem 192.168.1.10 destino 192.168.2.10 nao muda no caminho
Camada 2 origem MAC do PC1 destino MAC do ROTEADOR muda a cada salto
Na tabela ARP do PC1 entra o par do gateway, nunca o do PC2.
Onde ela fica e como consultar
Cada dispositivo tem a sua própria tabela ARP, guardada na memória do sistema operacional. O roteador também tem, uma por interface. As entradas expiram em minutos, o que faz a rede se recuperar sozinha quando uma placa de rede é trocada.
Windows arp -a lista o cache
arp -d * limpa o cache (como administrador)
Linux ip neigh lista o cache
ip neigh flush all
Uma entrada marcada como incomplete significa que a pergunta foi feita e ninguém respondeu. Isso aponta problema na camada 2 ou host desligado, e não erro de rota.
7. DHCP: como funciona
O DHCP, Dynamic Host Configuration Protocol, entrega automaticamente a configuração de rede para os hosts. Sem ele, cada máquina precisaria de IP, máscara, gateway e DNS digitados à mão, com risco de erro e de endereço repetido.
As quatro mensagens
O processo tem quatro etapas, lembradas pela sigla DORA. Repare que as primeiras acontecem em broadcast, porque o cliente ainda não tem endereço nenhum.
O Request vai em broadcast de propósito: se houver mais de um servidor DHCP na rede, os outros ficam sabendo que a oferta deles foi recusada e liberam o endereço que tinham reservado.
Portas e endereços
Cliente porta 68 -> Servidor porta 67
No Discover o cliente usa origem 0.0.0.0 e destino 255.255.255.255,
porque ainda não tem endereço nem sabe quem é o servidor.
Lease, renovação e reserva
- Lease é o tempo de empréstimo do endereço, comum entre 8 e 24 horas. Terminado o prazo sem renovação, o IP volta para o pool.
- Renovação: na metade do lease, o momento chamado T1, o cliente tenta renovar direto com o servidor, em unicast. Se não conseguir, tenta de novo em 87,5 por cento do tempo, o T2, agora em broadcast, aceitando qualquer servidor.
- Pool, ou escopo, é a faixa que o servidor pode distribuir, por exemplo de 192.168.0.100 a 192.168.0.200.
- Reserva amarra um IP fixo a um MAC específico. A impressora sempre recebe o mesmo endereço sem precisar de configuração manual nela.
- Relay: como o Discover é broadcast e broadcast não passa pelo roteador, uma rede sem servidor DHCP próprio precisa de um agente relay no roteador, que encaminha o pedido ao servidor de outra rede.
Quando o DHCP falha
Se nenhum servidor responder, o sistema se atribui um endereço 169.254.x.x, o APIPA. Com ele a máquina fala apenas com outras que também estejam em APIPA, e não tem gateway. Ver um endereço 169.254 no ipconfig é diagnóstico direto: o DHCP não respondeu.
8. Tabela MAC e tabela ARP lado a lado
As duas tabelas são confundidas o tempo todo porque as duas guardam endereços MAC. A diferença está em o que cada uma associa e em quem é o dono dela.
Frase para memorizar: a tabela MAC responde por onde eu mando. A tabela ARP responde para quem eu mando.
9. Duas redes locais ligadas por um roteador
Cenário: duas redes isoladas, R1 com a faixa 192.168.1.0/24 e R2 com a faixa 192.168.2.0/24. O objetivo é fazer um computador de R1 conversar com um de R2.
Qual equipamento é necessário
Um roteador, ou um switch de camada 3. Switch comum não resolve, porque ele só encaminha dentro do mesmo domínio de broadcast e não toma decisões com base em IP. Como as duas redes têm endereçamento diferente, é obrigatória uma decisão de camada 3.
O que configurar no roteador
- Uma interface conectada em cada rede, cada uma com um IP dentro da respectiva sub-rede: eth0 com 192.168.1.1/24 em R1 e eth1 com 192.168.2.1/24 em R2. Esses dois endereços serão os gateways dos hosts.
- Roteamento habilitado. As duas sub-redes entram na tabela de rotas como redes diretamente conectadas, o que já basta para o tráfego entre elas. Rotas estáticas ou um protocolo dinâmico só seriam necessários se houvesse outros roteadores no caminho.
- Firewall liberando o tráfego entre as duas interfaces.
- Sem NAT entre R1 e R2. NAT serve para a saída à internet, não para redes internas que precisam se enxergar.
O que configurar no computador de R1
- IP dentro da faixa de R1 e único, por exemplo 192.168.1.10.
- Máscara 255.255.255.0, a mesma de todos os hosts de R1.
- Gateway padrão 192.168.1.1, que é o IP do roteador dentro de R1. Este é o ponto que mais falha: sem gateway o host só alcança a própria rede.
- Servidor DNS, se for acessar por nome.
O caminho completo de um pacote, passo a passo
Este roteiro amarra tudo o que foi visto até aqui. O PC1, 192.168.1.10, quer falar com o PC2, 192.168.2.10.
- Decisão. O PC1 aplica a própria máscara ao IP de destino. O resultado, 192.168.2.0, é diferente da sua rede, 192.168.1.0. Logo o destino não é local.
- Escolha do gateway. Como o destino é remoto, o pacote vai para o gateway padrão, 192.168.1.1.
- ARP. O PC1 precisa do MAC do gateway. Consulta o cache; se não tiver, pergunta em broadcast e o roteador responde.
- Montagem do quadro. No nível 3, origem 192.168.1.10 e destino 192.168.2.10. No nível 2, origem MAC do PC1 e destino MAC do roteador.
- Switch SW1. Lê o MAC de destino, encontra na tabela MAC a porta do roteador e envia o quadro só por ela. O switch nem olha o IP.
- Roteador. Descarta o cabeçalho de camada 2, lê o IP de destino, consulta a tabela de rotas e vê que 192.168.2.0/24 está diretamente conectada na outra interface. Faz ARP do 192.168.2.10 dentro de R2, monta um quadro novo com a sua própria interface como origem, decrementa o TTL em 1 e encaminha.
- Switch SW2 e PC2. O SW2 entrega pela porta do PC2. A resposta faz o caminho inverso, e por isso o PC2 também precisa de gateway configurado, senão o pacote vai e não volta.
Resumo em uma frase: o par de endereços IP não muda de ponta a ponta; o par de endereços MAC é reescrito a cada salto. MAC é local, IP é fim a fim.
Como verificar a conectividade
Teste sempre do mais perto para o mais longe. Assim o primeiro comando que falhar aponta onde está o problema.
1. ipconfig /all confere IP, máscara e gateway
2. ping 192.168.1.10 a própria interface responde
3. ping 192.168.1.1 chego no meu gateway
4. ping 192.168.2.1 o roteador enxerga a outra rede
5. ping 192.168.2.10 teste fim a fim
6. tracert 192.168.2.10 mostra em que salto o caminho morre
7. arp -a o MAC do gateway foi resolvido?
8. route print existe rota padrão?
O ping usa ICMP, e muitos firewalls bloqueiam esse protocolo. Ping sem resposta não prova que não há conectividade. Confirme testando a porta da aplicação, por exemplo com Test-NetConnection 192.168.2.10 -Port 8080 no PowerShell.
Requisitos de endereçamento
Dentro de R1. Todos os hosts precisam estar na mesma sub-rede e usar a mesma máscara: aplicando a máscara ao IP de cada um, o endereço de rede resultante tem que ser igual para todos. Além disso, nenhum IP pode se repetir, os endereços precisam estar na faixa válida de hosts, que em 192.168.1.0/24 vai de .1 a .254, e o endereço de rede 192.168.1.0 e o de broadcast 192.168.1.255 não podem ser atribuídos.
Entre R1 e R2. As duas precisam ser sub-redes distintas e sem sobreposição de faixas. As faixas 192.168.1.0/24 e 192.168.2.0/24 funcionam. Já 192.168.1.0/24 e 192.168.1.128/25 se sobrepõem, porque a segunda está dentro da primeira, e isso quebra o roteamento: o host conclui que o destino é local, tenta resolver por ARP e nunca entrega o pacote ao roteador. Nenhum IP pode se repetir entre as duas redes, cada host usa o gateway da sua própria rede, e o roteador precisa conhecer uma rota para ambas.
10. A topologia montada
Duas redes locais, ambas com acesso sem fio, dois nós em cada uma, ligadas por um roteador. Ao lado de cada equipamento está a configuração essencial para a rede funcionar.
Rede R1 — 192.168.1.0/24 · gateway 192.168.1.1
Switch SW1
sem IP, camada 2
guarda a tabela MAC
Access point AP1
SSID rede-r1, WPA3
ponte para a LAN, sem IP
PC1, cabo
192.168.1.10/24
GW 192.168.1.1
MAC 00:1A:2B:00:00:11
Note1, Wi-Fi
192.168.1.20/24
GW 192.168.1.1
MAC 00:1A:2B:00:00:12
Roteador
eth0 192.168.1.1/24 · MAC 00:1A:2B:00:00:01
eth1 192.168.2.1/24 · MAC 00:1A:2B:00:00:02
roteamento habilitado
Rede R2 — 192.168.2.0/24 · gateway 192.168.2.1
Switch SW2
sem IP, camada 2
guarda a tabela MAC
Access point AP2
SSID rede-r2, WPA3
ponte para a LAN, sem IP
PC2, cabo
192.168.2.10/24
GW 192.168.2.1
MAC 00:1A:2B:00:00:21
Smartphone, Wi-Fi
192.168.2.20/24
GW 192.168.2.1
MAC 00:1A:2B:00:00:22
Tabela MAC do switch SW1
Aprendida sozinha, a partir do MAC de origem dos quadros recebidos.
Tabela ARP do PC1
Cada dispositivo tem a sua. O SW2, o roteador e os demais hosts mantêm tabelas próprias.
Para falar com o PC2, em 192.168.2.10, o PC1 não cria entrada ARP para esse IP. Ele usa o MAC do gateway, porque o ARP não atravessa o roteador.
Os endereços MAC do exemplo são fictícios. O MAC não é uma configuração: ele vem de fábrica na placa. Aparece aqui porque as tabelas MAC e ARP são feitas dele.
11. Comandos de diagnóstico
12. Erros que mais derrubam uma rede
- Máscara diferente entre hosts da mesma rede. A fala com B, mas B não responde a A, porque cada um calcula um limite de rede diferente.
- IP duplicado. A conexão fica intermitente e o sistema costuma avisar com a mensagem de conflito de endereço IP.
- Gateway fora da sub-rede do host. O host não consegue nem resolver o MAC do gateway, porque ele não está no mesmo segmento.
- Usar o endereço de rede ou de broadcast em um host. Em uma /24, o .0 e o .255 são reservados.
- Achar que switch separa redes. Switch é camada 2 e não separa domínio de broadcast, a menos que use VLAN. Quem separa é o roteador.
- Achar que o access point cria uma rede nova. O AP é ponte de camada 2. Wi-Fi e cabo compartilham IP, máscara e gateway.
- Concluir que a rede caiu porque o ping falhou. O ICMP costuma ser bloqueado por firewall. Teste a porta da aplicação.
- Sub-redes sobrepostas entre duas redes. O host acha que o destino é local e nunca entrega o pacote ao roteador.
- Endereço 169.254.x.x. Não é configuração: é sinal de que o DHCP não respondeu.
- Cache ARP velho depois de trocar uma placa de rede. Espere expirar ou limpe com
arp -d.